ISON em Dezembro

O céu não espera por nós, mesmo no nosso calmo sistema solar de meia-idade. Sem os olhos postos nas estrelas nocturnas, sem as fotografias diárias dos telescópios, o cometa C/2012 S1 poderia ter passado despercebido e desaparecer nos confins do nosso quintal cósmico, de onde é originário. Mas este pequeno agregado de gelo e poeiras foi descoberto a 21 de Setembro de 2012, pelos astrofísicos russos Vitali Nevski e Artyom Novichonok. Desde então, calculou-se a sua órbita, estimou-se o seu tamanho e especulou-se muito sobre o espectáculo que iria originar no céu. O cometa vai rasar o Sol, atingindo a sua aproximação máxima amanhã, mas pode desfazer-se em vários pedacinhos, diminuindo a probabilidade de ser observável a olho nu. É preciso esperar para ver.

 

 

“Muitos cometas têm uma órbita semelhante ao plano da eclíptica, o plano em que os planetas giram em redor do Sol”, explica ao PÚBLICO Rui Agostinho, director do Observatório Astronómico de Lisboa, e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Estes cometas têm órbitas mais próximas, as suas viagens demoram em média 200 anos. Não é o caso do C/2012 S1. “Não está na família dos planetas jovianos. Está no grupo de cometas com períodos orbitais na ordem dos milhares de anos”, diz o astrónomo.

No caso de ISON, o nome informal que foi dado a este cometa por ter sido descoberto por uma equipa que pertencia à Rede Óptica Científica Internacional, com sede na Rússia (ISON, sigla em inglês), o seu período orbital terrestre é de quase 401 mil anos (400.903, para se ser mais exacto). “Quando ele voltar, se calhar a humanidade já nem existe”, repara Rui Agostinho.

O cometa pertence à nuvem de Oort, uma região na extremidade do sistema solar onde existem milhares de milhões de objectos congelados, a qualquer coisa como entre 50.000 e 100.000 unidades astronómicas (a unidade astronómica é a distância média entre o Sol e a Terra, que é cerca de 150 milhões de quilómetros).

A nuvem de Oort situa-se muito além da órbita de Neptuno ou da cintura de Kuiper, uma cintura de objectos transneptunianos onde se insere Plutão, e que está, por comparação, a apenas 50 unidades astronómicas. Mas os objectos que pertencem à nuvem de Oort ainda estão sob o poder gravítico do Sol, e por isso ainda pertencem ao nosso sistema solar. De vez em quando, um destes objectos salta da calma distante desta região e mergulha até ao centro do sistema solar. Com um pouco de sorte, os astrónomos, com a ajuda dos telescópios, encontram esse cometa. Foi o que aconteceu ao ISON. “É uma descoberta fortuita”, diz Rui Agostinho.


O núcleo de um cometa é uma amálgama de gelo e poeira, não muito consolidada, que pode ter formas estranhas como a de uma batata ou a de um amendoim. Normalmente, o núcleo não tem mais do que alguns quilómetros de diâmetro. As partículas desta poeira raramente atingem a proporção de grãos de areia, pois costumam ser tão pequenas como as partículas libertadas no fumo do tabaco. São feitas de silicatos, o material que resta da nébula original do sistema solar, que ficou aprisionado nestes pedaços de gelo. É, assim, idêntico ao material que ajudou a formar os planetas e as luas no começo da história do sistema solar e, por isso, um alvo interessante de estudo para os cientistas.

O núcleo do cometa ISON tem, estima-se, um diâmetro entre os 200 metros e os quatro quilómetros. Esta amplitude é inferida a partir da quantidade de material que está a libertar-se à volta do núcleo. Ao aproximar-se do Sol, o aumento da temperatura causa a sublimação do gelo, que passa directamente do estado sólido para o gasoso, criando uma nuvem em volta do núcleo chamada cabeleira. Esta cabeleira pode atingir 100.000 quilómetros de diâmetro, tornando possível a observação do cometa.

O fenómeno que produz a cauda é outro. “A cauda é a interacção da cabeleira com a luz solar, que empurra a poeira para longe”, explica Rui Agostinho. Os fotões, as partículas corpusculares que compõem a luz que atingem a Terra, empurram as partículas da cabeleira ao longo de milhões de quilómetros, produzindo a cauda que, ao contrário do que se possa pensar, não é um rasto deixado pelo cometa.

A sublimação contínua de gelo vai permitir a libertação de poeiras contidas no cometa. No caso do ISON, a sua trajectória é muito particular. Consiste numa órbita elíptica apertada, que se aproxima do centro do sistema solar por baixo do plano da eclíptica, depois aproxima-se do Sol e dá-lhe uma volta e regressa para os confins da nuvem de Oort. É quando está a regressar para a sua casa longínqua, alguns dias depois de ter “raspado” o Sol, que o cometa se torna visível à vista desarmada no hemisfério Norte. Mas a experiência de aproximação ao Sol pode correr mal.
 
Ou vai ou racha
Quando amanhã fizer a apertada curva ao Sol, atingindo o periélio, o cometa vai ficar a apenas 1,5 milhões de quilómetros da nossa estrela, o que é cerca de quatro vezes mais próximo do que está Mercúrio. E a força gravítica a que o cometa vai ser submetido durante a curva acelerada em redor do Sol pode ser de mais para este corpo. “O núcleo é composto por gelo que está sujo de poeira, não tem nenhuma cola que o segure”, explica Rui Agostinho. “Pode não aguentar e desagregar-se. A probabilidade disso acontecer é grande.”

No site da NASA que acompanha diariamente a situação do cometa, o post mais recente, de segunda-feira, alertava para uma diminuição acentuada da emissão de gases, substituída por um grande aumento da produção de pó. No site, defendia-se que isto podia ser um sinal de desintegração do cometa.

Rui Agostinho tem reservas. “Isto indica a tal estrutura muito amorfa. O núcleo do cometa não é uma estrutura homogénea de gelo e poeira.” Ou seja, pode haver uma região com mais poeira e menos gelo, originando estas leituras descritas no site. “Ninguém pode confirmar se o cometa se está a desintegrar, isso só pode ser observado por telescópio, quando forem vistos dois núcleos.”

Se o cometa se desintegrar, os resultados não serão muito famosos para o espectáculo que muitos desejavam. “A soma do brilho de cada pedacinho é menor do que o brilho do núcleo inteiro”, diz Rui Agostinho, explicando que, caso a desintegração aconteça, os minicometas que restarão e as suas respectivas caudas só poderão ser vistos ao telescópio.

Se tudo correr bem na visita do cometa ao Sol, há mais possibilidades de ser visível também em Portugal. Inicialmente, vistos a partir da Terra, o cometa e o Sol estarão demasiado próximos para se distinguirem. Mas de dia para dia, o ISON ficará cada vez mais distante do Sol, melhorando as observações.

O melhor período para ver o cometa será durante a primeira quinzena de Dezembro. Quem quiser fazê-lo terá de se levantar antes do nascer do sol e olhar para Leste, por cima do local onde o Sol irá aparecer. No início, estará muito perto do horizonte. Mas à medida que os dias passarem, o cometa surgirá cada vez mais alto no céu, ainda que com menos brilho, já que se afasta do calor do Sol. A 26 de Dezembro, passará mais perto da Terra, sem qualquer perigo de colisão.

Rui Agostinho não está muito crédulo em relação ao espectáculo que o cometa poderá proporcionar. “Para já, não estou muito entusiasmado. Com o telescópio, vê-se bem e os binóculos podem ajudar. O pior é se o cometa se transformar em fragmentos. Vamos ver.”

Resta assim esperar para ver o que o céu oferece, e tentar, numa das próximas madrugadas, apanhar ISON entre as estrelas. Depois, o cometa seguirá a sua viagem, para nunca mais ser visto pelos actuais habitantes da Terra.

Fonte: Público

Astronomia no Verão – Porto Santo 17/08/2013

Como habitualmente, a AAAM proporcionou uma sessão de observação diferente no Porto Santo. Integrada na Astronomia no Verão 2013, residentes e veraneantes aproveitaram a oportunidade de espreitar alguns planetas e objectos notáveis de céu profundo.

Apesar da lua em quarto crescente (já nos 70%), foi possível vislumbrar Vénus, Saturno e Lua e os objectos M7 e M8 (enxame aberto e nebulosa), M31 (galáxia de andrómeda) e as duplas ópticas Mizar e Albireo. Foram localizadas pelo público as constelações de Ursa Maior, Cocheiro, Escorpião, Cisne/Lira/Águia (triângulo de Verão), Cassiopeia, quadrado do Pégaso e dicas de localização da Estrela Polar.

Algumas imagens:

Avaliação Actividades Astronomia no Verão

A Associação de Astrónomos Amadores da Madeira solicita a todos os associados e público em geral que participam/participaram em qualquer actividade da Astronomia no Verão que avaliem a mesma no sítio da Ciência Viva.

Esta avaliação, anónima, permite receber o sempre útil feedback e melhorar constantemente as actividades.

Para avaliar, basta entrar no site da Ciência Viva, seguido de Ciência no Verão (no menu à direita), escolher a data e o típo de actividade (neste caso, Astronomia), seguido de Avaliar.

Obrigado!

Lua Azul – 31 de Agosto de 2012

O fenómeno raro da chamada “lua azul”, ocasião em que a fase de Lua Cheia ocorre duas vezes no mesmo mês, vai mais uma vez brilhar no céu, três anos após o último acontecimento.

Apesar do nome, o fenómeno da lua azul não tem qualquer relação com mudanças na cor do satélite. O apelido foi dado em função da raridade com que o ciclo lunar, cuja duração é de 29 dias e meio, ocorre por completo dentro de um único mês, possibilitando a aparição de dois períodos de lua cheia.

Neste mês de Agosto, o primeiro ciclo da lua cheia ocorreu no dia 02 às 4h27. O fenómeno da lua azul vai ocorrer no final do mês de Agosto dia 31 às 14h58. De notar que, apesar do instante da lua cheia ser muito bem definido, a definição convencional de “lua azul” implica que o fenómeno dependa do fuso horário em que nos encontramos.

Por exemplo o instante da lua cheia dia 31 ocorre às 13h58 UTC (14h58 em Portugal continental), mas na Nova Zelândia, que se encontra no fuso horário UTC+12, a lua cheia ocorre já no dia 1 de Setembro (1h53 NZST), e portanto a Nova Zelândia, e todos os países em fusos horários UTC+11 ou UTC+12, desta vez não são brindados com uma “lua azul”.

Conta-se que a origem da designação lua azul remonta ao século XVI, quando algumas pessoas que observavam a lua a olho nu achavam que ela era azul. Anos depois, discussões a respeito deste assunto, mostraram que era um absurdo a lua ser azul, o que gerou um novo conceito para lua azul como significado de “nunca”. Com esse significado de algo muito raro, começou-se a dizer que a segunda lua cheia de um mês era uma “lua azul”.

A aparição da segunda lua cheia no mesmo mês é mesmo algo raro. A última ocorrência foi registada em Dezembro de 2009. O fenómeno nada mais é do que uma lua cheia no céu.

Apesar de o fenómeno não ter relação com a coloração do satélite, conta-se que há registos na história de que a lua realmente aparentava a cor azul. Foi em 1883, quando houve uma explosão do vulcão Krakatoa, na Indonésia, e os gases em expansão na atmosfera fizeram com que a lua bem próxima do horizonte tivesse a aparência azulada. “Isso foi visto no mundo todo por quase um ano”, disse um astrónomo. Outro episódio ocorreu em 1951, quando um grande incêndio nas florestas do Oeste do Canadá lançou muitas partículas na atmosfera, criando o mesmo efeito que o Krakatoa, mas visível apenas na América do Norte.

in Astronovas, Lista de Distribuição de Notícias de Astronomia

Astronomia no Porto Santo

No âmbito da Astronomia no Verão 2012, foram realizadas duas sessões de observação no Cais da Cidade do Porto Santo.

A primeira, na noite de 17 de Agosto, pautou-se pelo céu limpo e sem restrições se ignorarmos a forte poluição luminosa típica daquela cidade. Foram observados os planetas Saturno e Marte e os enxames M7, M6 e M8, incluindo a famosa nebulosa da Lagoa. Durante a sessão, foram dados detalhes sobre a formação dos planetas observados, respectiva posição na esfera celeste e introdução à formação de estrelas.

A sessão terminou abruptamente pelas 23h30 devido a avaria na estação de potência portátil que alimenta o sistema de orientação do telescópio.

No dia seguinte, o céu apresentava-se com boas abertas, pelo que foi possível observar os planetas Saturno e Marte, seguindo-se para alguns objectos notáveis como M6, M7, M8 e M11, ao mesmo tempo que eram dadas informações e alguns pontos curiosos sobre Astronomia ao numeroso público presente – muito em causa devido à interrupção no dia anterior.

A sessão terminou pelas 00h devido à forte nebulosidade que se fez sentir, impedindo observações. Demos por encerrada a actividade pelas 01h após explicação técnica sobre o funcionamento do telescópio e demonstração com observações de objectos terrestres.

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